Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O meu Diário Anti Cancro

Este é o meu cancro. Não há cancros iguais. Aqui partilho alegrias, tristezas, conquistas e desafios.

O meu Diário Anti Cancro

Este é o meu cancro. Não há cancros iguais. Aqui partilho alegrias, tristezas, conquistas e desafios.

23
Mai19

Nem oito nem oitenta

Sónia Azevedo

Após um segundo cancro podemos ter preocupações excessivas com o nosso futuro. Afinal já é a segunda vez que ele nos bate à porta e assim ficamos muito alarmados com o que poderá vir a seguir. 

 

No primeiro cancro, não investiguei nada, não deixei de viver por causa dele e nem contei a muitas pessoas. Foi o chamado "oito". Foi o verdadeiro "minimalismo" do meu ser perante a situação.

 

No segundo, já foi diferente, embora de inicio tenha levado com alguma leveza, com o passar do tempo comecei a viver intensamente a doença, pesquisando, lendo livros, artigos, grupos e tudo o que estivesse relacionado com cancro. Neste caso foi o "oitenta".

 

Até à radioterapia eu estava tranquila. A partir do momento que fico um mês confinada no IPO, tudo mudou. Eu não falava muito da doença, até que à hora das refeições vem alguém, que já anda nisto há vários anos e pergunta:

 

Qual é o teu tipo de cancro? E eu nem sabia de tipos, subtipos. Sabia apenas o estadio, a percentagem de propagação e que era positivo. E depois a pessoa fica indignada por nada sabermos sobre o que temos. É nesse momento que tudo começa. Começamos a tentar perceber mais sobre o assunto. Pois alguém nos fez sentir do género: Como não sabes qual é a tua doença?

 

E depois vem outras pessoas e falam das reicidivas, nos ossos, noutros órgãos e o pânico começa-se a instalar. Eu lembro-me que a certa altura já nem acabava de comer para não ouvir mais. Mas tornou-se impossível. Não se fala de outra coisa. Cancros, tipos, subtipos, tratamentos que nem nunca tinha ouvido falar. Só conhecia a quimioterapia e a radioterapia, mas existe todo um mundo para além disso.

 

Fala-se de cancro como se falasse do tempo. Ele está presente na maioria das conversas. 

 

Acho que nem oito nem oitenta. Devemos saber conviver com a doença, mas sem entrarmos numa espiral em que mais nada existe. Claro que começamos com a ideia de pesquisar o que nos faz bem e mal, estarmos o mais informados possível sobre o assunto. Mas depois vem todo o resto e pode-se dar o caso de começar a absorver tudo o que aparece sobre o tema. 

 

O tempo que passei no IPO foi de facto o que despoletou tudo, pois ali vive-se 24 horas com a nossa doença e a dos outros. Começamos a ver situações piores que a nossa, e são essas situações que realmente nos assustam, porque automaticamente pensamos: Podia ser comigo.

 

A certa altura absorvemos tudo como uma esponja e já não estamos a viver com o nosso cancro, mas com todos os outros que nos rodeiam e podem ser dezenas. Aquela serenidade inicial de levar isto com calma, desaparece e entra o medo, muito medo, e depois ansiedade e depois o descontrole completo sobre a nossa pessoa. 

 

A certa altura já não sofremos por nós próprios, mas por todos os outros que também estão a passar por esta fase. 

 

E chega a um ponto que a nossa sanidade mental se pode ir de vez e quase ficamos num paralisia de dor, estamos asfixiados com tanta dor, a nossa e a dos outros. E se chegamos a este ponto deixamos de viver. Ou vivemos com medo, muito medo do que poderá vir ao até nem vir. 

 

E ontem decidi que ia colocar um ponto final nisto e que ia conviver de forma amigável com o meu cancro apenas. Sem projecções de que pode vir ou não. 

 

A partir de hoje vou viver cada dia o melhor possível. Não vou continuar atormentada com o que pode vir e também não vou ficar presa ao passado. Está na hora de viver um dia de cada vez sem dramas passados ou futuros.

 

E penso que isto se deve aplicar a todos, com o sem cancro.

 

Vivam cada dia, abracem esse dia e deixem-se levar pela maré.

 

people-2605074_1920.jpg

E se gostou e não quiser perder pitada deste diário subscreva por email.

8 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

sabe-o-que-anda-a-comer-mrec
livro-acucar-mrec
a-ansiedade-nos-nossos-dias-mrec
Banner MREC -40% alimentação saudável

Pesquisar